Golpe do Pix por engano: agora são 80 dias para contestar o MED

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Golpe do Pix por engano: agora são 80 dias para contestar o MED

Você está no caixa da sua loja, ou terminando um serviço, e o celular apita: caiu um Pix. Minutos depois chega uma mensagem educada, às vezes até aflita: "Moço, mandei esse Pix por engano, era para outra pessoa. Consegue me devolver?". Você, de boa-fé, faz um Pix de volta. Problema resolvido, certo? Alguns dias depois, você abre o extrato e percebe que o banco tirou da sua conta aquele mesmo valor de novo. Você devolveu uma vez por conta própria e perdeu uma segunda vez, sem entender como.

Esse é o chamado golpe do Pix por engano, e ele mira principalmente comerciantes, prestadores de serviço e pequenos negócios. A boa notícia é que, desde 1º de setembro de 2026, uma regra nova do Banco Central ampliou de 30 para 80 dias o prazo para contestar esse tipo de devolução. Neste artigo, explicamos em linguagem simples como o golpe funciona, o que a regra mudou, o que cada lado costuma alegar, como se proteger e o passo a passo para contestar.

Por que o assunto está em alta

O Pix virou o jeito mais comum de receber dinheiro no Brasil, do salão de beleza ao food truck. Para facilitar a vida de quem cai em golpe, o Banco Central criou o MED, sigla para Mecanismo Especial de Devolução. Ele permite que a vítima de fraude peça ao próprio banco que o dinheiro seja bloqueado e devolvido pela conta que o recebeu.

O MED é uma ferramenta importante. Só que, como toda ferramenta, ele começou a ser usado ao contrário por golpistas. O esquema é simples e cruel:

Como descreveu o Correio Braziliense, o golpista "pode acabar recebendo o valor de volta pela segunda vez: uma vez diretamente do comerciante, e outra pelo próprio mecanismo de proteção do Pix". Foi esse tipo de situação que levou o Banco Central a mexer nas regras.

O que a regra do Banco Central mudou

A mudança veio pela Instrução Normativa BCB nº 766, de 27 de julho de 2026. Ela divulgou uma nova versão do Manual Operacional do DICT, que é a parte técnica do Regulamento do Pix, a base de dados das chaves Pix e das notificações de fraude. A norma teve duas datas de vigência:

Na prática, funciona assim. Se o seu banco tirou dinheiro da sua conta porque alguém acionou o MED contra um Pix que você recebeu de forma legítima, você agora tem 80 dias para contestar essa devolução. A contagem começa na data da devolução feita pelo MED, e não na data do Pix original. Segundo a Agência Brasil, a mudança protege "principalmente comerciantes, prestadores de serviço e pequenos negócios vítimas de golpes".

Por que isso importa? Porque 30 dias passam rápido. Muita gente só percebe o desfalque no fechamento do mês, quando confere o extrato com calma, ou quando o contador aponta a diferença. Com 80 dias, há tempo real para perceber o problema, juntar provas e reclamar.

Vale lembrar como o MED funciona por dentro, segundo o guia oficial do Banco Central: quando alguém aciona o mecanismo, o valor na conta de quem recebeu é bloqueado, e o banco dessa pessoa tem até 7 dias corridos para analisar se há indício de fraude. Se concluir que sim, o dinheiro é devolvido, total ou parcialmente, conforme o saldo disponível. Além disso, desde a Resolução BCB nº 493/2025, o MED passou por uma reformulação (o chamado MED 2.0), que inclui o botão de contestação dentro do aplicativo do banco e o rastreamento do dinheiro mesmo depois de ele ter sido repassado para outras contas.

O que a lei diz sobre a responsabilidade de cada um

A regra do Banco Central trata de prazos e procedimentos. Mas, quando alguém sai no prejuízo, outras normas entram em cena:

Isso não quer dizer que o banco sempre será responsabilizado. Os tribunais costumam analisar se o banco seguiu as regras do MED, se analisou a contestação com cuidado e se houve alguma conduta do próprio cliente que contribuiu para o prejuízo. Também há um detalhe importante para quem é empresa: a aplicação do Código de Defesa do Consumidor a uma pessoa jurídica depende do caso concreto, em especial de o pequeno negócio estar em posição de vulnerabilidade diante do banco.

Os vários lados dessa história

Todo golpe envolve mais de um personagem. Entender como cada um enxerga a situação ajuda a agir melhor.

Sinais de alerta: quando desconfiar

Nem todo pedido de devolução é golpe, mas alguns sinais merecem atenção:

Passo a passo para se proteger e contestar

Se você recebeu um pedido de devolução, ou se o banco já tirou o dinheiro da sua conta, este roteiro ajuda:

  1. Não devolva com um Pix novo: se for mesmo devolver, use a função de devolução que aparece no próprio comprovante do Pix recebido, dentro do aplicativo do seu banco. Assim, o dinheiro volta exatamente para a conta de origem e fica registrado como devolução daquela transação.
  2. Oriente a pessoa a procurar o banco dela: quem errou pode acionar o próprio banco. Se houver engano real, o sistema resolve por lá.
  3. Guarde tudo: faça prints das conversas, salve o comprovante do Pix recebido, o comprovante de qualquer devolução que você tenha feito e o extrato mostrando o débito do MED.
  4. Registre boletim de ocorrência: isso pode ser feito pela delegacia eletrônica do seu estado. O boletim ajuda a comprovar que você também foi vítima.
  5. Conteste no seu banco em até 80 dias: procure a opção de contestação no aplicativo ou nos canais de atendimento, explique que a devolução pelo MED foi indevida e anexe as provas. Anote o número de protocolo e a data.
  6. Se não resolver, suba a reclamação: procure a ouvidoria do banco, registre reclamação no Banco Central (pelo site do BC, na área de reclamações) e na plataforma consumidor.gov.br.
  7. Considere buscar orientação jurídica: se o valor for relevante ou o banco se recusar a rever a devolução, é possível buscar a Justiça. Para causas de até 40 salários mínimos existe o Juizado Especial Cível, e nas de até 20 salários mínimos a pessoa pode entrar sem advogado (Lei nº 9.099/1995).

Para quem tem funcionários, vale transformar os itens 1 e 2 em regra do caixa: nenhuma devolução sai por Pix novo, nunca.

O que pode ser buscado

Dependendo do caso, quem foi lesado pode buscar:

Não existe resultado garantido. O sucesso depende das provas, do respeito aos prazos e de como os bancos envolvidos agiram. Por isso o prazo de 80 dias é valioso: use esse tempo a seu favor, e não deixe para a última semana.

Perguntas frequentes

Recebi um Pix por engano de verdade. Sou obrigado a devolver?

Sim. Quem recebe um valor que não lhe era devido deve restituir (art. 876 do Código Civil). O jeito mais seguro é usar a função de devolução do próprio Pix no aplicativo, ou aguardar que o banco da pessoa acione o MED.

O prazo de 80 dias vale para quem caiu no golpe e fez o Pix?

O novo prazo de 80 dias trata da contestação de uma devolução feita pelo MED, ou seja, protege quem recebeu o Pix de forma legítima e teve o valor retirado. Quem fez um Pix e caiu em golpe deve acionar o MED no próprio banco o quanto antes, porque quanto mais cedo, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta do golpista.

O banco pode tirar dinheiro da minha conta sem me avisar?

Pelo regulamento do Pix, quando há notificação de fraude, o valor pode ser bloqueado e, depois da análise, devolvido. O banco deve seguir o procedimento e analisar o caso. Se você recebeu de forma legítima, tem o direito de contestar e pedir a revisão.

A regra vale para pessoa física também ou só para empresas?

A regra vale para qualquer recebedor de Pix. As notícias destacam os comerciantes porque eles são o alvo principal desse golpe, já que recebem muitos Pix de pessoas desconhecidas todos os dias.

Preciso de advogado para contestar?

Não para a contestação no banco, nas reclamações ao Banco Central ou no consumidor.gov.br. Esses canais são gratuitos. A orientação jurídica pode ajudar quando o banco se recusa a rever a devolução ou quando o valor é alto.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo, em conformidade com o Provimento 205/2021 da OAB. Não constitui consulta jurídica nem garante qualquer resultado. Cada caso deve ser analisado individualmente. Para uma situação concreta, o recomendado é reunir a documentação e buscar orientação jurídica especializada.

Fontes consultadas

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